Não é a primeira vez que vejo uma entrevista a Jim Reekes, o criador do actual som de arranque dos computadores da Apple. Ele era um dos intervenientes no filme Welcome to Macintosh onde, numa prolongada secção do documentário, se fala sobre os vários sons que os Macintosh tiveram ao longo do tempo e em como se chegou ao som, baptizado de Sosumi (so sue me!), que desde 1991 “alegra” o arranque dos mesmos.
Como fanboy que sou, admirador de tudo o que vem de Cupertino, já estou habituado a todo o tipo de loucuras por parte dos seus leais seguidores.
Deixem-me descrever-vos uma dessa loucura: O processo de lançamento de um novo produto.
Os pundits vão à bruxa
Meses antes de sair alguma coisa da cartola da Apple, os pundits começam com as previsões, eles procuram nas entranhas das galinhas sacrificadas e nos padrões das folhas de chá pistas sobre o produto que a casa mãe vai lançar. Os mais organizados agregam os prognósticos dos principais analistas num ranking de probabilidades. Alguns analistas têm fontes dentro da Apple, os “insiders”, e embora isso seja super cool, nem sempre funciona.
Os analistas financeiros auscultam o mercado usando uma espécie de Reductio ad absurdum comparando o que as empresas de tecnologia compram e o qua a China vendeu, a diferença–pensam eles–terá então sido absorvida pela Apple.
O trio Jon Gruber/Daniel Eran Dilger/TUAW gladia-se por notoriedade, relevância e precisão numa luta titânica que só cessa na tarde da keynote.
Cá por Portugal, o nosso querido Pedro Aniceto recorta as gralhas do mundo dos jornais desportivos, enche o twitter e mobiliza o pessoal para enviar ainda mais um hamburger à Alberta Marques Fernandes.
A Keynote
O momento mais importante para o fanboy. Mais importante que o próprio Big Bang, aliás, o pálido Big Bang foi apenas o início do processo que culminará, 13,7 bilhões de anos depois, na Keynote.
Após o Big Bang, a matéria começou por condensor para formar os elementos básicos, que foram depois transformados no alumínio e nos elementos mais pesados no interior das Supernovas para então o Jonathan Ive os maquinar em obras-de-arte. E mais nada!
A ressaca da keynote e os evangelistas
Depois da keynote vem a luta para ser o primeiro a ver e a tocar e a fotografar o tão almejado novo produto nos salões do centro de conferências.
Depois de o produto ganhar forma, os evangelistas entram em cena, e atribuem-lhe uma função, juntamente com um “je ne sais quoi“. Reciclam algumas das frases chave ouvidas na keynote e martelam-nas na internet com prensas de 5 toneladas (o que quer que isso queira dizer).
Por esta altura, o Monkey Boy (Steve Balmer, actual CEO da Microsoft) aparece numa entrevista a menosprezar o último lançamento da Apple, e ri-se… e salta.
A viagem à Nova-Zelândia, a fila à porta da loja, o desempacotar, o dissecar e o destruir
Mais tarde, aquando do lançamento no mercado existem aqueles que vão à Nova Zelândia, numa tentativa de se adiantarem ao seu fuso horário, para lá se juntarem à fila que entretanto se formou à porta da loja, para comprar o dito, correr para o hotel para fotografar o desempacotar e finalmente dissecar o pobre coitado.
Passados uns dias surgem os analistas de tecnologia, que entretanto dissecaram o aparelho num laboratório, deitaram ácido sobre os chips (que a Apple antecipadamente desfigurou) para descobrir quem os fabricou e poder contabilizar chip a chip quanto custa o aparelho e qual a margem de lucro da marca da maçã.
É então que surgem os videos no YouTube do pessoal a partir o produto. Uma cerimónia que os antropólogos associam a rituais falhados de passagem para a idade adulta.
Início de um novo ciclo
Entretanto começam a surgir boatos que um novo produto lá lá lá…
(…)
E no entanto, não me levem a mal, eu adoro esta loucura! É uma loucura das boas!
E como vêm, foi nesse contexto que não estranhei, nem por um momento, existir uma nova e extensa entrevista ao Jim Reekes sobre o “barulhinho” que o computador faz quando arranca, mais uma!